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27 de Novembro de 2020

Não seja sócio do seu melhor amigo

Sérgio Merola, Advogado
Publicado por Sérgio Merola
ano passado

Hoje o meu texto é destinado aos novos advogados que sonham em ter o próprio escritório de advocacia.

Por falta de orientação nos cursos de Direito, quando formamos, ficamos sem saber qual o melhor caminho a se tomar: abrir um escritório ou trabalhar como advogado empregado em um grande escritório?

Neste pequeno texto, espero passar um pouco da minha experiência para vocês, que acabou de se tornar advogado e ainda está perdido com as possibilidades que a carreira lhe oferece.

Via de regra, aqui no Brasil, entramos na faculdade com 18 anos, e nos formamos aos 23.

Hoje, com 33, sei que 23 anos é muito pouco para que uma pessoa tenha noção dos riscos que se assume ao abrir um negócio/escritório.

Ocorre que, naquele ímpeto de final de curso, muitos estudantes (e aqui me refiro a estudantes de direito) decidem abrir escritórios de advocacia com os amigos que fez durante a faculdade, ou mesmo antes do curso de Direito (amigos de infância), sem avaliar o perfil profissional daquele (s) amigo (s).

Esse tipo de escolha pode custar muito caro por dois motivos: 1- se não há convergência nas ideias e nos propósitos, as chances da sociedade dar certo são baixas, e isso vai trazer prejuízos financeiros aos sócios; 2- com a chegada da crise, quando uma das partes opta pelo fim da sociedade, as chances da amizade ser mantida também é muito baixa, pois os atritos são muito intensos quando a questão envolve cifras $$$.

Apesar de muitos discordarem, um escritório de advocacia é um negócio, mesmo que tenha várias particularidades.

Você precisa gerir uma estrutura (caso tenha uma sede física), tem que fazer marketing, prospectar clientes, cumprir prazos, e fazer gestão das finanças.

Ah, e além de tudo isso, você tem que advogar!

Gerir um escritório de advocacia é um dos negócios mais complicados que existe, e por isso que você não deve ser sócio por amizade, mas, sim, por convergência de ideias e princípios negociais.

Aliás, não recomendo a ninguém abrir o próprio negócio na advocacia logo após a formatura.

Procure, primeiro, uma oportunidade em algum escritório: aprenda sobre rotinas administrativas, gestão, financeiro, prazos, RH, relacionamento com o cliente e prospecção, e tudo mais que puder aprender.

E quando já tiver uma boa noção de como funciona um escritório de advocacia, aí sim, aventure-se e abra o próprio escritório.

E se optar por ter sócio (s), avalie o perfil dele (s) no que tange aos negócios:

1- Vocês têm as mesmas ambições na advocacia?

2- Qual o perfil de escritório que pretendem ter, perfil "massa" ou "boutique"?

3- Qual a estratégia de prospecção de clientes pretendem adotar?

4- O que pensam a respeito do marketing na advocacia?

Essa são apenas algumas perguntas para que você possa avaliar se o perfil do potencial sócio escolhido é compatível com o seu. A decisão deve ir muito além do que as respostas dessas 4 perguntas.

Sendo compatível os perfis dos profissionais que fazem parte da sociedade, alinhe uma estratégia em que cada sócio possa ser explorado na sua melhor habilidade, pois assim todos ganham, e não fica aquela sensação de que um fez mais por merecer do que o outro.

Ah, e tudo isso eu falo por experiência própria: fui sócio de um grande amigo, e como nossos perfis não eram compatíveis, a sociedade acabou se rompendo

Para a minha carreira isso foi ótimo, pois consegui implementar todas as minhas ideias inovadoras, que não eram alinhadas com o perfil do meu ex-sócio, e isso trouxe um crescimento surpreende para o meu escritório; contudo, foi o fim de uma amizade de mais de 2 décadas.

Portanto, repetindo o título, não seja sócio do seu melhor amigo, a não ser que as ideias de negócios entre vocês sejam convergentes!

Um abraço!



12 Comentários

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É clichê, mas se adequa: - Amigos, amigos; negócios à parte! continuar lendo

Exatamente, minha cara Fátima! Abraços! continuar lendo

Que artigo oportuno! Sabe Dr. @sergiomerola85, dentre os temas que as universidades não preparam ninguém, empreender talvez seja o principal deles. A falsa premissa da mercantilização afasta os acadêmicos de direito de disciplinas e habilidades - como você bem colocou - que são essenciais para qualquer profissional liberal: postura; comunicação interpessoal; gestão de pessoas; gestão de processos; marketing; inteligência emocional.

Saímos "técnicos em serviços jurídicos", mas muito pouco humanos e gestores de nossas próprias carreiras. Destaco esse trecho do artigo:

"Sendo compatível os perfis dos profissionais que fazem parte da sociedade, alinhe uma estratégia em que cada sócio possa ser explorado na sua melhor habilidade, pois assim todos ganham, e não fica aquela sensação de que um fez mais por merecer do que o outro".

Sabe, quando trago do exemplo da minha sociedade sempre faço questão de destacar que meu sócio e eu não fizemos faculdade na mesma instituição, não éramos amigos ou nos conhecíamos. Nos conhecemos, em verdade, num dos eventos que passei a frequentar para fazer networking na área empresarial e, por coincidência, conversando percebemos a similitude de propósitos. Começamos a partilhar algumas causas e o caminho da sociedade foi quase que natural, com ambos recusando algumas outras propostas.

Resolvemos apostar na proposta do nosso próprio escritório e, até aqui, dois anos após tem se mostrado uma escolha acertada.

Tenho certeza que alguns amigos de longa data se sentiram desprestigiados no meio do caminho, mas precisava de um sócio com um perfil completamente diferente do meu. Com um modo de pensar convergente nos princípios e caráter (o que é importante, diga-se de passagem), mas com uma atuação profissional e habilidades diferentes.

Sou um advogado mais "raiz", atuo em várias áreas e tenho experiência forense e de petição acima da média para alguém com apenas três anos de atuação. Meu sócio vem do serviço público, possuí experiência na área de gestão e métodos extrajudiciais de conflitos. Ou seja, eu sou mais "operacional" e ele é mais "gerencial". Com essa complementariedade, conseguimos abranger vários aspectos e entregar ao nosso cliente uma atuação mais ampla.

Excelente artigo e espero que minha experiência sirva para algum (ns) leitor (es) que estão trilhando o caminho de empreender na advocacia.
(Há) Braços! continuar lendo

Muito bacana, Dr. Thiago!

Grande abraço! continuar lendo

Perfeito colega.
Tenho pra mim que a sociedade é um casamento. Você tem que se enquadrar no perfil de sócio que o seu sócio quer e ele tem que se enquadrar no seu. Além disso, os ideais e propósitos devem ser o mesmo. E o mais importante: os dois devem ter o mesmo nível de "sangue no zóio". continuar lendo

Exatamente, Fernando!

Um abraço! continuar lendo

Excelente artigo. continuar lendo